Caixa de Pandora
Um furo para o desejo...
18/03/2012
Sinos Borromeanos
Para salvar, clique o botão direito sobre Sinos_Borromeanos.mp3 e escolha «salvar como», «salvar o link como» ou algo parecido.
08/12/2011
Sinos de Carla
Sinos de Carla (youtube)
Sinos de Carla (mp3)
Para tocar, clique no link.
Para salvar, clique o botão direito sobre o link e escolha «salvar como», «salvar o link como» ou algo parecido.
É realizada com webcam, PureData e o "color_classify".
O color_classify é um objeto do PD que recebe a imagem da webcam e classifica a cor de cada pixel. É a primeira contribuição do Lab Macambira para o Gem (PD) e permite que objetos coloridos sejam identificados e utilizados para controlar o som.
O desenvolvimento do software foi coordenado por Ricardo Fabbri.
A composição e performance são de Gilson Beck.
25/10/2011
Sarau CLP - Niteroi - 18/Out/2011
Aqui estão quatro execuções interativas de alguns dos participantes do Sarau.
Para escutar, é só clicar sobre o nome delas. Para download, clique no botão direito sobre o nome e depois selecione "salvar arquivo como" ou algo semelhante.
Rato de Praia 1 (mp3)
Rato de Praia 2 (mp3)
Rato de Praia 3 (mp3)
Rato de Praia 4 (mp3)

Rato de praia, cria da areia,
cara tão suja, vida tão feia.
Correndo livre, destino incerto,
nenhuma culpa, sem dó, nem teto.
Um dia surge, no seu caminho,
almoço grátis, molho chumbinho.
Sabor amargo, decepção,
estatelado no calçadão.
08/06/2011
Concerto de Percussão, Piano e Electrónica (Tomar)
Programa
- Gilson Beck
Improvisação sobre a peça “Cartas Celestes” de Almeida Prado (piano solo¹)
[mp3]
- Carlos Menezes Júnior
Iluminura (vibrafone e electrónica em tempo real²)
- Gilson Beck
Improvisação “Nou Chopin” (piano e electrónicos¹)
- Celso Cintra
Altar ou a Resposta dos Deuses (temple bell e electrónica em tempo real²)
- Cesar Traldi e Gilson Beck
Improvisação “Na Persistência, a Gota” (piano¹ e percussão²)
- Cesar Traldi e Gilson Beck
Improvisação “Esticar do Tempo” (piano e electrónicos¹, percussão²)
[mp3]
¹ Gilson Beck: piano e electrónica
² Cesar Traldi: percussão e electrónica
Realização:
SFGP - Sociedade Filarmónica Gualdim Pais (Tomar-Portugal)
Apoio:
FAPEMIG - Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais
UFU - Universidade Federal de Uberlândia
12/02/2011
A Cidade Diamante
A música é uma mistura das músicas «Aurora Borealis» de Renato Fabbri com a «Popopop» do Supreme NTM (grupo de hip-hop francês).
No meio da noite, tudo o que tenho é você, cidade-diamante
Brilha escandalosa, com o fogo de uma amante
Você parece tão perto, ao alcance da minha mão
Mas tentar tocar você é como tentar tocar a própria ilusão
A distância entre nós, eu sei, é grande
Não precisa me lembrar quem eu sou, eu sei o meu lugar, eu sei a minha sina
Mas se você é o meu patrão, eu sou sua morfina
Olhando o seu brilho, quase penso que você é pura, que você é dama
Mas eu sei de tu, eu sei da tua lama
O que mantém este teu brilho são vidas simplesmente
Fornalha de almas, fogueira de gente
Sedenta e vaidosa, tu sempre quer mais
Quanto custa o teu brilho? É quanto custa a tua paz
Se eu quiser, acabo com a tua pose, acabo com a tua festa
Cidade-diamante, o meu ódio é o que me resta
Cidade-diamante, nossa guerra nunca vai ter fim
Desejar o que nunca vou ter é o que a vida reservou pra mim
Por isso não quero o teu beijo da morte, nem que você me estrangule com seu abraço
Você se defende com o seu dinheiro, eu me defendo com o meu aço...
SOLDADO 1 estava apontando seu fuzil para a cidade, quando soldado 2 se aproximou:
SOLDADO 2: Ih, que parada é essa, maluco? Tá querendo arrumar arengação com os homens lá embaixo?
SOLDADO 1: Tu chega atrasado pra rendição e ainda quer arrumar idéia, cumpadre?
SOLDADO 2: Tô com o meu moleque doente. Por quê? Vai me regular agora?
SOLDADO 1: Vê se fica esperto, mané! Vou segurar essa. Mas vou soltar uma letra pra tu: vagabundo já ta numa de detonar, falei?
SOLDADO 2: Demorou.
SOLDADO 1: Acabei de fazer um rap. Quer ouvir?
SOLDADO 2: Ih, se liga, mané! Não tem essa de artista! A gente não tem futuro não. Este negócio de fazer música é vacilação. Nego aproveita que tu tá de bobeira e te mete um bote, mané.
SOLDADO 1: Vai esculachar agora, vacilão? Toma.
O soldado 1 entregou ao outro o seu AK-47.
SOLDADO 1: Fui!
SOLDADO 2: Já é.
O Soldado 1 se foi, cantarolando a sua música. O Soldado 2 assumiu o seu posto.
Tudo calmo. Lá embaixo, a cidade podia dormir em paz.
14/01/2011
Trabalho de "Temas de História Cultural da Música"
apontamentos de relação pela escuta do não-sentido
Trabalho completo em PDF
Orientação: Professor João Pedro d'Alvarenga.
Este trabalho tem como objectivo uma pequena abordagem da psicanálise e da musicanálise (análise musical), sobre alguns dos aspectos próprios de cada uma, sobre suas semelhanças e sobre um ponto de encontro entre as duas, no qual elas podem se relacionar e auxiliar mutuamente.
Como um primeiro passo, perguntamos o que é a psicanálise e o que é a “musicanálise”. Logo em seguida, vou expor factores que nos levam a pensar a música como uma linguagem, associar a psicanálise e a musicanálise com o uso da língua como meios de expressão e como sistema significante comum, traçar um esboço sobre a relação entre psicanálise e musicanálise, seus pontos de contacto, com que bases podemos dizer que o inconsciente e a música se estruturam como linguagem e finalmente fazer alguns apontamentos sobre a razão da musicanálise e da psicanálise.
Para isso usei como base a dissertação de mestrado feita por Luis Francisco Espíndola Camargo, intitulada “A Escuta do não-sentido: na Linguística na Música e na Psicanálise.”, feita na Universidade Federal de Santa Catarina (Florianópolis/SC-Brasil) em 2004.
Também utilizei o artigo que trata de análise musical do “The Grove Dictionary of Music and Musicians”, o livro “Arte, Dor: Inquietudes entre Estética e Psicanálise” do psicanalista João A. Frayze-Pereira, o livro “Você quer o que deseja?” do psicanalista Jorge Forbes e os artigos sobre Lacan, Psicanálise e musical analisys da Wikipédia.
02/01/2011
Voz e live-electronics
Que fique claro, são esboços, bem descontraídos. :-)
1- A Nossa Casa
2- Contato Imediato
1- Compositor: Arnaldo Antunes / Celeste Moreau Antunes / Alice Ruiz / Paulo Tatit / João Bandeira / Edith Derdik / Sueli Galdino (http://www.cifraclub.com.br/arnaldo-antunes/a-nossa-casa/)
2- Compositor: Arnaldo Antunes / Marisa Monte / Carlinhos Brown (a tribo)
01/01/2011
Mrài
Se uma vida que não existe é uma vida fantasma, os tormentos fantasmas são tormentos que não existem, tormentos irreais, tormentos criados, bem criados, bem nutridos, bem crescidos os tormentos, que atormentam a vida fantasma e não a deixam encarnar. Tormentos tornados reais, tornados que levam os estais. Podiam navegar a vida à vida. Uma Fénix queimada por um fogo interno, uma ardência, uma vida que quer sair mas está fechada em si, fantasma, moribunda, zombie.
Zumbindo, zombando da vida, o fantasma reina, zomba da sorte, feito abelha zumbi na orelha, à cabeça da vida, coisas, regras, normas, remorsos, travas, trancas, tranches, trecos.
É quando o fantasma dorme que a vida deve acordar. Mas será que fantasma dorme?
Casa, uma esfera segura onde o fantasma devia repousar ou onde ele devia ficar de fora. Casa, a casa única, não múltipla. Casa, não o caso, não um caso, não o acaso. Casa, casta, casto, cacto, casca. Casa, causa, aquela que se não diz, aquela coisa que custa, o custo para estar protegido. Mas protegido de que? Do fantasma? O mesmo fantasma que adormece lá dentro mas que deveria estar fora? É possível matar um fantasma? Mas ele já não é um morto...
Preso a um trem, o trem fantasma. O trem anda no trilho, um traçado determinado, que efectiva e afectivamente leva a algum lugar. Não à uma casa, talvez à um caso, não casto. Carro ou caro?
O trem fantasma flutua, paira, sai da linha, descarrila. Não leva, não comunga, não comuna, não leva ao lugar comum nem ao lugar esperado.
Mas o fantasma não existe, portanto um trem livre, troço-treco que anda ao bel-prazer, ao léu, para onde quer ir com o intuito e instinto de assustar, para cumprir seu objectivo, para emocionar, para emocionar-se, para transmitir emoção. Sem noção, para trans-meter, transformar, deformar, o que chega, que pega, que solta, que vibra, que pulsa...
Já não arde, o fogo deve estar no trem, andando. O outro ardor anda por aí. Não sei dele. De carro, ainda caro, ou trem em rumo oposto? Mal disposto ou bem disposto? Não sei. Mas disponível, por mais que isso doa. Foi um ardor, este outro ardor, que queimou, que de tão quente fundiu e também derreteu, desfez. Refez também, ou pelo menos mudou, marcou, para que Fénix, agora, volte a voar.
Mas Fénix destruiu. Como sempre, a fala de Fénix sangra e faz sangrar. Fénix fere. Fere com ferro, que quente, e o mesmo ferro será ferido, até a carne feder a queimado e a dor. Ou não, Fénix é o fogo, ardor, ardência que pulsa e que escorre. O fogo que recria renasce, ressurge de cinzas, do céu cinza...
Se o fogo pega, Fénix, a chama é enorme e se alastra, contagia, não casta. Mas se for à água, por não compartilhar ou por compartir, não há união possível. Ou o fogo apaga-se ou a água evapora-se. Juntos ou associados, não só os seus poros, podem fazer o bom cozer, o que nutre, o que enche, o que completa, o que conforta, o que desenvolve, o que procria, o que recria. Se misturados, aniquilam-se, destroem-se, fundem-se, confundem-se e morrem.
Viram fantasmas, que sorte nefasta...
Fogo e água, mutáveis e extáticos, que criam, transformam, nutrem e fazem florescer. Aqueça e sacie. Nutram e confortem.
Vá, Fénix. Tu não tens ninho. Teu calor e aconchego são próprios.
Senhora do mar, Mrài, da fertilidade e da vida, no teu reino, Nobre senhora, que é ao pé do mar, reine!
28/11/2010
As Esponjas e as Bactérias
Os cientistas ainda não sabem se o universo é infinito ou só incomensurável. O próprio universo que conhecemos – quer dizer, que os cientistas conhecem – pode conter milhares de outros universos e está sempre se expandindo.
O que vemos no universo quando olhamos para o alto ou vamos a um planetário nada mais é do que o que estava ali há 14 bilhões de anos. O que vemos ali agora está na verdade a uma distância muito maior de nós, ou até já nem existe, ou já virou outra coisa...
Como todo mundo aprendeu na escola, a nossa galáxia é a Via Láctea, e o nosso sistema é o Sistema Solar. Mais do que isso, nós, que não somos cientistas, provavelmente nunca vamos ficar sabendo. Dizem eles – os cientistas – que, por causa da forma como as galáxias se aglomeram e se distribuem, o universo tem a aparência de uma célula. A vida na Terra também nada mais é do que um aglomerado de células. A célula é a menor porção da matéria viva. Da vida em si.
No corpo de todos os organismos, as células, assim como o universo, estão sempre em movimento. Uma célula morre, não sem antes dar suas informações genéticas para a próxima célula que virá. Assim, o corpo continua funcionando e a gente continua vivo. Há quem diga – de novo, os cientistas – que de sete em sete anos todas as células do corpo de um ser humano terão morrido e dado lugar a novas células. É a chamada renovação celular. De sete em sete anos seríamos pessoas completamente diferentes, mas com a mesma informação genética. Não sei se isso é verdade, mas até que faz sentido. Se não me engano (não sou muito religiosa...), o budismo tem ciclos de sete em sete anos. A astrologia também. Sete, catorze, vinte e um, vinte e oito. Não comprava muito essa coisa da astrologia não, mas agora que fiquei sabendo que os cientistas também acreditam em ciclos de sete, tô fodida. O Retorno de Saturno tá chegando pra mim.
Mas não era nada disso que eu queria dizer. Falei isso tudo só pra vocês entenderem do que eu quero falar. O que eu queria dizer é que a morte – ela, sempre ela – tem tudo a ver com o envelhecimento celular. Quando você estiver no décimo segundo ciclo de sete, com 84 anos, as suas células vão passar para as que vierem no lugar delas a informação genética de que você está ficando velho. Daí pra frente, menino, é ladeira abaixo. Mas isso obviamente se você – ou eu – não morrer antes, de alguma doença ou trauma que degenere ou interrompa o processo celular do seu corpo. Tantas possibilidades, tantos medos, quando na verdade é tudo bem simples: doença, trauma ou envelhecimento celular. São só três as formas de morrer.
Sete bilhões de pessoas no mundo. Sem contar o crescimento demográfico dos próximos ciclos de sete. Sem contar também a preferência por organismos humanos do sexo masculino na China. Ou o equilíbrio populacional que as guerras empreendem. Nada disso interessa. O que interessa é que todas as multidões do planeta, aquelas que se aglomeram esperando o sinal abrir para os pedestres, na Rio Branco ou na Quinta Avenida, todas as pessoas só têm três formas de morrer. Se elas morrerem na rua, na cama de casa ou na maca do hospital, eletrodos ligados ao corpo e o piiii daquela maquininha, quando o gráfico vira linha reta e o médico anuncia a hora da morte pra botar no atestado de óbito, não interessa. Fato é que teremos morrido de uma das apenas três maneiras de morrer.
A parte boa – se é que existe alguma parte boa nisso – é que há organismos no planeta, em meio a toda a diversidade existente, que não ficam velhos. É verdade. Isso também são eles – os cientistas – que dizem. As bactérias, por exemplo, duplicam suas células a cada vinte minutos. Se houver condições suficientes (alimentação, ambiente propício e tal), elas não envelhecem nunca. As células das bactérias vão sempre se reproduzir e elas nunca vão morrer de velhice. As esponjas também. O envelhecimento celular das esponjas é quase nulo, muitas vezes nem dá pra ser detectado. O que significa que se não vier um tubarão para comê-las (e eu nem sei se tubarão come esponja) ou se elas não forem intoxicadas pelo óleo derramado por algum navio em alto-mar, as esponjas não morrem nunca. A mesma coisa com as bactérias. Se não houver um exército de antibióticos armado com fuzis para assassiná-las, as bactérias também não morrem.
É claro que na prática isso é quase impossível. Mais cedo ou mais tarde, dentro do tempo da Terra, eventualmente elas também vão ser atingidas por doenças ou traumas, e vão morrer. Não é que as esponjas e as bactérias sejam imortais. É só que, pra elas, só existem duas formas de morte, e não três. E era isso que eu queria dizer.
23/11/2010
Improvisações
Um Chopin [2010/Nov]
PureData (PD) com sample da Balada nº 2 de F. Chopin
[mp3]
Solitário [2008]
PureData (PD) e voz, sobre poema de Augusto dos Anjos
[mp3]
XVIII [2008]
PureData (PD) e voz, sobre poema de Hilda Hilst
[mp3]
Dia da Experimentação Eletroacútica [2008/Abr/14]
PureData (PD), softwares livres diversos e samples. Duo de computadores com Renato Fabbri. Gravado ao vivo em concerto na Escola de Música Pró-Música em Campinas-SP/Brasil.
[mp3]
22/11/2010
«Prêmio Funarte de Composição Clássica»
O concurso foi realizado para selecção de obras para a 19ª Bienal de Música Brasileira Contemporânea.
Das 384 obras inscritas, 59 foram seleccionadas para serem executadas durante a Bienal, no segundo semestre de 2011. Uma das 59 foi a minha.
A peça chama-se «No Leito do Aqueronte», escrita para quarteto de cordas e concorreu na categoria «conjuntos de câmara de 04 a 10 instrumentos».
O anúncio saiu no site da Funarte.
17/11/2010
Caneta, Lente e Pincel - 1 Ano
22/10/2010
Escritório
Esse barulhinho cotidiano
de passos, de máquina de escrever,
de janelas batendo sem querer
ou de trovão, é, sem qualquer engano,
uma angústia torta do ser humano,
que se fia nele sem perceber,
mas de um jeito estranho, sem o poder
que se costuma atribuir, e o plano
é, então, musicalizar as bossas,
empoderar esses surdos ruídos
pra que os tímpanos dos homens recebam
as catarses dos dias destruídos
na minúcia da rotina, e que sejam
felizes no curtir de suas fossas.
Música: Gilson Beck.
Texto: Igor Dias.
02/10/2010
Cibele
A garota nua correu em direção ao beco e eu fui atrás. Sua pele alva contrastava com as paredes escuras abarrotadas de trepadeiras. Cabelos ruivos revoltos. A ruela era tão estreita que a luz que entrava por cima era extremamente escassa, tampada pelos imensos prédios. Apressei o passo para não perdê-la de vista, ora afastando galhos que se prendiam das paredes. Pistola armada com silenciador. O chão também era de musgo. Escorregadio pacas. Clima úmido como floresta. De vez em quando a garota olhava para trás para conferir se eu ainda estava. Começou a correr feito uma lebre. Tive que correr também. Odeio metamorfos. Já tinha a perdido outras vezes. Desta vez não podia falhar. Corria ligeiro, derrapando no limo. Tentei atirar. Feito gata, saltou numa escada de metal e subiu rapidamente. Fui atrás. Perdi alguns segundos. Músculos puxados – quase distendi. Quando olhei pra cima a vi chegando à cobertura. Fui de dois em dois, ofegante, até o topo. Meu pé de vez em quando falhava no lodo. Ultrapassei janelas de apartamentos abandonados. Cheiro de ar puro em céu aberto. Na cobertura, não encontrei ninguém. Nenhum sinal da ruiva fantasma. Apenas uma inofensiva borboleta vermelha voando entre os edifícios. Atirei. Caiu feito chumbo fazendo estrondo no beco. Olhei da ponta e vi a ruiva nua, morta, lá embaixo. Parecia pintura de Gustav Klimt. Corpinho branco e cabeleira vermelha. Um grande lago de sangue escuro sobre o manto verde. Tirei meu celular do bolso de dentro do paletó e fotografei. Enviei como anexo com a mensagem: Tá Feito! – a meu contratante.
18/08/2010
Nim'mera
Feita com o objectivo de pesquisar a possibilidade de estruturação composicional na qual todas as partes se relacionem entre si, ou seja, todas as decisões e posicionamentos composicionais foram tomados tendo os mesmos elementos (quantitativos) como critérios.
É uma miniatura, com constantes retornos (rondó?). Linhas que se movem para um único ponto, onde ficam a saltitar.
02/08/2010
dobrado fibonacci
É uma primeira experiência de relacionar texto e música não só nas questões de afecto, mas também no que diz respeito à estrutura.
O conjunto é feito a partir da frase "o desejo é partido". Esta frase é estruturada a partir da série de Fibonacci, com os elementos 1 2 1 1 3 (o-dese-jo-é-partido).
Na música, este elementos definem as durações dos sons e da estrutura formal, sendo 1=100ms, utilizando de ampliações (por exemplo 3+5+3+2+8=21 ou 8+13+8+5+21=55).
As sílabas da frase são o material sonoro matriz da música, que, manipulado com o ABT (ABeatTracker - REAME_ABT.txt) desenvolvido por Renato Fabbri, gera todos os sons da peça.
o
dese
jo
é
partido
o
dese
jo
é
dobrado
os
olhos
que
se
defrontam
são
curva
dos
são
vazados
o
dese
jo
foi
vertido
no
olhar
dis
se
minado
o
dese
jo
in
vertido
o
olhar
diz-
se
minado
o
dese
jo
foi
perdido
o
olhar
foi
en
contrado
22/06/2010
Mais uma de Mary Jane
Mary Jane poderia seguramente pontuar uma dúzia de histórias que fertilizaram sua imaginação e fizeram com que cada vez mais ela se tornasse Mary Jane. Um dessas, sem dúvida, é a história de Nessie. As duas se conheceram numa noite quente de verão em que os adultos ficaram até tarde tentando sem muito sucesso se refrescar com todas as janelas abertas, umas doses de martini e a doce empáfia sonora em vertigem na agulha da vitrola. Quando todos se refestelavam, Mary Jane deitou-se no tapete embaixo da mesa e, com fones de ouvidos que a separavam do burburinho sensual dos mais velhos, concentrou-se em absorver os mais bizarros segredos da criptozoologia jamais exibidos na tv. Enquanto flagrava a metonímia das pernas num vai-e-vem frenético pela casa, seus pensamentos inundavam-se de toda a água do Loch Ness e os olhos mesclavam-se com as imagens insólitas de quando Nessie, dominada por uma solidão jurássica, subiu à superfície e deixou que o mundo tomasse conhecimento de sua existência. Trêmula e quase compulsiva, Mary Jane enquadrou sua polaroid no campo reluzente da Telefunken e registrou com emoção vibrante aquele momento histórico de sua morna adolescência.
Texto de Assionara Souza.
08/06/2010
O Som de Dentro
Não é om, é tum. Repetidas vezes. O som primordial é este que está guardado em uma caixa de caber fogos de artifício. Ora estouros sucessivos, ora intervalos que mais parecem carretéis de lã. O barulho que dispara é o mesmo que diz pára, é o mesmo que vai para onde eu nem sempre consigo fotografar com uma palavra. O seu é tão metálico, que eu espero que não seja irreversível de doçura. Na tentativa de compreender seu ritmo, trago agora comigo uma mala cheia de ferramentas. Silêncio para que eu ouça. Não fala que eu te ausculto.
Texto de Ilana Reznik.
18/04/2010
A CIDADE FANTASMA
Passou o dinheiro por debaixo da grade. A moça lhe entregou o bilhete. O próximo trem só chegava em duas horas, e ela definitivamente não estava muito confortável consigo mesma para esperar sozinha com seus próprios pensamentos. Talvez devesse ter levado um livro. Talvez não devesse ter saído só com a roupa do corpo e a pequena mala colorida. Aquela mala, que já tinha estado em tantas estações e aeroportos nos últimos seis anos, desde que ele lhe dera de presente, na primeira viagem que fizeram juntos, ao sul do Lago Vermelho. Lembraria com tristeza das viagens que fizeram juntos. Do quanto se divertiram, dos restaurantes em que jantaram. Do passeio a cavalo que fizeram nas Altas Pradarias. Do voo de parapente nas Grandes Falésias. Voo que ela não teria feito se não fosse a insistência dele. Logo ela, que era destemida e gostava de aventuras. Mas na hora em que viu os homens se preparando para voar, na beira do precipício, amarelou. Logo ela. Precisou que um homem – o seu homem – disse que sim, vamos agora. Quanto ela não tinha precisado que ele dissesse que sim. Ou que não. Até mesmo um talvez ela precisava ouvir dele. Tinha passado seis anos precisando que ele desse as diretrizes da sua vida.
Não estava gostando muito de ter que esperar duas horas com esses pensamentos. Um menino ofereceu-se para carregar sua mala. Ela agradeceu, mas, por mais ridículo que fosse, era um pouco simbólico que não se desgrudasse da mala, daquela mala. Era necessário carregá-la ela mesma, pois ela mesma estava deixando tudo pra trás.
Sentiria falta dos vinhos que tomaram juntos e dos queijos que comeram nas noites geladas do inverno de dezembro. Sentiria falta do cachorro que adotaram juntos – mas não poderia mesmo ter levado o cachorro. Precisava deixar tudo, tudo o que fosse em comum, deixar tudo para trás, ali naquela cidade fantasma. Também ia sentir falta do dia da mudança para a cidade fantasma. Mesmo que da cidade em si não fosse sentir falta nenhuma. Ela, que sempre fora uma pessoa de cidade grande, mas que se deixara convencer a viver em uma cidade pequena, muito pequena. Vai ser melhor pra gente, ele disse. Vamos conseguir trabalhar mais, focar mais no nosso trabalho, ele argumentou. Ela achou na época que ele estivesse pensando nela. Mas fato é que não estava, ele pensava nele, só nele, no que seria melhor pra ele. E naquele momento não tinha nem pensado que ela não gostava da vida em uma cidade do interior. Ela gostava de carros, engarrafamento, barulho, luzes. Mas ela fora mesmo assim. Por amor. Por necessidade. Ou por apego. E depois de três anos em uma cidade fantasma, ela também havia se tornado um fantasma. Um zumbi, um algo que era entre ela e ele, mas bem mais distante dela.
Viu um casalzinho jovem, possivelmente recém-casado, beijarem-se debaixo do letreiro luminoso que sinalizava a direção do banheiro. Pensou que ela e ele um dia já tinham sido como esse casal que ela agora invejava, e de quem também agora tinha pena. O destino dos relacionamentos é a merda. Disso ela tinha certeza.
Quando o autofalante anunciou a chegada do trem à estação, ela se deu conta de que já tinham passado os cento e vinte minutos de espera, e de que não tinha sido nem tão ruim ficar sozinha com ela mesma. Era triste abandoná-lo, abandonar tudo. Mas era necessário. Seu vagão parou na plataforma, ela acomodou-se no assento reservado. A seu lado, um menino de uns dezenove anos, vindo de alguma estação anterior, ouvia música com fones de ouvido, ainda que estivesse tão alta que desse para ela saber exatamente qual era a música que tocava. Ela o olhou com atenção, mas ele não reparou nela. Ele deve ser de alguma metrópole, pensou, por causa da música eletrônica que conseguia ouvir. Lembrou do dia em que foram, ela e ele, ao Auf Aller Welt, uma boate de música eletrônica daquela cidade alemã. Lembrou do quanto estavam em sintonia naquela época, e do quanto odiaram as músicas, e do quão correndo foram embora de lá, às gargalhadas. As lembranças lhe deram um pouco de tristeza. Olhou para suas mãos e percebeu que a unha do indicador direito ainda estava suja de sangue. Do sangue que ele vomitara um pouco depois de beber o veneno que ela colocara em seu copo de uísque.
E enquanto a locomotiva partia, pensou que se aquilo tudo fosse o Velho Oeste, fariam pra ele uma cerimônia indígena de morte – ou de passagem, como achava que os índios deveriam dizer. Olhou para a janela e viu o infinito descampado da paisagem. A música ambiente que tocava no vagão se misturou à música que saía dos fones de ouvido do garoto ao lado. E o sol de fim de tarde misturou-se ao frio que fazia. Ela imaginou – e chegou até mesmo a ver – uma roda de índios vestidos como americanos-nativos em torno dele, queimando o corpo e cantando músicas de amansar espíritos.
Relaxou as pernas e esticou os pés, enquanto a fumaça da locomotiva rasgou o ar gélido e claro da cidade fantasma.
Texto de Maíra Fernandes de Melo
"Neste mês celebramos um ano de Caneta, Lente & Pincel. Por isso, resolvemos fazer uma brincadeira. Se nosso conceito é produzirmos obras de arte inspiradas umas nas outras, nesta rodada potencializamos isso, de modo que a obra que inspira um texto é também inspirada numa imagem, numa pintura rupestre, a obra primeva. Veremos, no século XXI, surgirem na internet diferentes consequências artística daquilo que foi produzido na infância da humanidade. Obras de arte não só são eternas, como continuam produzindo efeitos. Curta as diferentes leituras feitas por nossos colaboradores."
08/03/2010
avalanche
“Tive um sonho estranho essa noite. Quer ouvir?”, ela disse titubeante, insegura já no seu primeiro gesto daquela manhã de segunda-feira.
“Quero, sim, amor, com certeza”, ele respondeu dando-lhe um beijo suave, “mas não posso agora, preciso sair correndo pro trabalho”, continuou enquanto bebia rapidamente um gole de café com leite.
Eram recém casados. Ela ainda se esforçava para parecer interessante, olhava pra ele, fingindo estar desvendando algo desconhecido até dele próprio. Contudo, ignorava que esses gestos passavam despercebidos e eram vistos por ele como um peculiar jeito de ser. Já eram tão rotineiros que ele nem imaginava que ela fazia qualquer esforço para agir assim. Ele, por sua vez, tentava acreditar que pouca coisa havia mudado naquelas primeiras semanas de casamento.
“Depois do trabalho vou visitar uma amiga”, ela disse desinteressadamente.
“Bem, posso pegar você a hora que quiser”, ele, saindo, completou, “me liga durante o dia”.
Ela ainda ficou algum tempo vivenciando a sensação de estarem juntos. Hoje, particularmente, ele parecia muito à vontade com o fato de estar casado. À vontade demais, ela pensava, tentando encontrar nele ao menos alguma parcela do esforço que ela própria fazia para surpreendê-lo.
Seus dedos brincavam com um elástico de cabelo, e sua imaginação esticava o tempo como ela fazia com aquele pequeno objeto em suas mãos. Pensou no sonho da noite anterior e na sensação de ausência de identidade que tivera ao acordar. E aquele pensamento desencadeou uma avalanche em sua cabeça. Pensava em quanto tempo seria preciso para aquele elástico arrebentar. Teve medo de viver um dia igual ao outro, igual ao outro e igual ao outro, todos os dias seguintes de sua vida até que ela própria arrebentasse, assim como o elástico. Pensou em seus amigos e que seus amigos sumiriam, dando lugar à privacidade de sua vida de casada. Teve medo do telefone não tocar. E nenhum amigo mais chamá-la pra sair. Teve pavor de uma solidão que não sabia de onde vinha porque estava cercada de pessoas, no trabalho, na família, filhos que teria após um ou dois anos de casada. Teve medo de tudo dar errado. Via-se andando de um lado pro outro no pequeno apartamento, tentando arrumar um canto em que pudesse estar sozinha com os mesmos pensamentos que não mais a largariam desde esse dia em que brincava com o elástico de cabelo após tomar café sozinha.
Guardou o leite e o requeijão na geladeira e escovou os dentes, vestiu-se para trabalhar e recebeu uma mensagem em seu celular:
“01/04/2008. 10:25. Com o que você sonhou?”, as letras sobre o fundo azul remetiam à breve lua-de-mel sob o céu de Lisboa.
Ela sentou no sofá vermelho que comprara numa ponta de estoque e minutos depois no celular dele o desenho de um envelope que se abria mostrando o seguinte texto:
“01/04/2008. 10:37. Sonhei que eu deixava você”.
Ela pegou o elevador, sentindo-se escorregar numa poça de neve derretida.
O celular vibrou novamente.
“01/04/2008. 11:05. Não vou deixar que faça isso”.
E, tendo respondido sua mensagem, ele não mais pensou no sonho dela durante o resto do dia, como se tudo estivesse apenas em suas próprias mãos. Para ela, o mais difícil foi fingir que nada acontecia dentro de si mesma quando o que sentia era semelhante a estar rolando precipício abaixo.
Às oito e quarenta ele chegou em casa e acendeu a luz da sala. Tirou os sapatos e as meias pretas. Tirou a gravata e pensou que estava com sede. No celular, viu que havia outro envelope a ser aberto:
“01/04/2008. 19:19. Certezas me amedrontam”.
Ele procurou nas mensagens enviadas o que havia dito antes, mas não conseguiu entender o que ela pensava exatamente. Ligou pra ela, mas a ligação era encaminhada para a caixa de mensagens. Ligou outra vez e outra vez. Não ouvia sua voz desde aquela manhã.
Bebeu um copo de água gelada, pensando onde ela poderia estar àquela hora, o que fazia ou por que não havia ligado pra ele durante o dia inteiro. Por um momento teve medo de ser tudo um sonho apenas. Pensou se aquilo já era sofrer.
Pegou no chão o elástico de cabelo arrebentado que ela usava pela manhã.
Ele mexia no elástico remendando-o como a um fio rebelde numa roupa nova, quando as chaves dela balançavam na fechadura, abrindo a porta de entrada. Nesse momento, lembrou-se que ela iria visitar uma amiga. Nesse momento, ela percebeu que sentia falta da voz dele lhe dizendo qualquer coisa e não sabia o que fazer com aquela saudade.
Ele disse, quer comer alguma coisa? E ela sentiu um alívio tão grande que o beijou demoradamente.
E naquela noite, na primeira noite após a lua-de-mel, depois de um dia inteiro separados um do outro, sem ter certeza de quase nada e no meio de uma avalanche de temores, perplexidades e incongruências, os dois se beijaram e se amaram até o amanhecer. E perceberam que isso apenas bastava.
Texto por Danielle Costa.

