11/12/2012

Premio Funarte de Composição Clássica 2012

A Fundação Nacional de Artes – Funarte divulgou, no dia 29 de outubro de 2012, segunda-feira, a relação de proponentes selecionados para o edital do Prêmio Funarte de Composição Clássica / 2012.
Gilson Beck está na lista.
Site da FUNARTE.

13/08/2012

canções sem retorno II : sopro λόγos

                   sopro             areja                       λόγos

ainda          q seja     logro

ØutrØ                        q seja                                 ogro

                                  mesmodesejaØutrØ

                   λόγos              enseja                 gol

come ou seja                         go

gozo      q sejaagora

                       azo             enseja                  a ca s o

                                     o idq sejao ego

ceg                     q veja                                  FOGO

lh
inveja
b<>ca

                                                                                                     b<>ca

                                                                                                     inveja

                                                                                                     sexΩ

                              mente
                                            voeja
                                                         corpo
                               ideia
                           adeja


Poema: Guilherme Preger
Música: Gilson Beck (com PureData e Kinect via Osceleton)
Agradecimentos: Tiago Serra pela ajuda com o software Kinect-Osceleton

18/03/2012

Sinos Borromeanos

Música eletrônica feita para o seminário «Música Borromeana» que foi apresentado nos Seminários de Psicanálise da Antena do Campo Freudiano em Lisboa no dia 14 de Março de 2012.


Para baixar: Sinos_Borromeanos.mp3.

15/03/2012

Textos

Para uma Música Borromeana
Artigo publicado na Afreudite - Revista Lusófona de Psicanálise Pura e Aplicada.
O texto explora a Composição Musical pela via de RSI e do Nó Borromeano no ensino de Jacques Lacan. Também elabora propostas técnicas e estéticas para uma Música Borromeana.
Artigo em PDF
Resumo na Afreudite


Dissertação de Mestrado
Trabalho de Mestrado defendido na Universidade de Évora (Portugal) em 24 de Fevereiro de 2012.
Dissertação - Download

Título:
A Forma no Contexto de uma Linguagem Composicional por Princípio Gerador Único.

Resumo:
O presente trabalho consiste numa pesquisa e reflexão sobre composição musical, através da experimentação pessoal, com o objetivo de desenvolver uma técnica baseada num princípio gerador único. Foram compostas três peças para testar e polir a aplicabilidade da proposta, enquanto objeto de análise e reflexão sobre o processo composicional, sublinhando a organização estrutural.
A proposta de composição musical por princípio gerador único parte da definição dada por Schoenberg, em Fundamentos da Composição Musical, de que o motivo básico inclui os elementos subsequentes e neles está incluído. O princípio gerador único é formado por três elementos: o material gerador (ideia musical) que será convertido em material abstrato através de um agente sistematizador (gráfico de proliferação). Os três estão amarrados como o nó Borromeano, uma nodulação que interliga os seus laços de maneira que, se um se separar, todos os outros se desprendem.
Orientador: Christopher Bochmann.

O texto ainda tem erros ortográfico e está em lenta correção e revisão.
Comentários e correções são bem-vindos.


Trabalhos de Análise Musical
produzidos durante o Mestrado em Composição Musical

Análise de L'Alouette Calandrelle
Análise da 8ª peça da colecção Catalogue d'Oiseaux composta por Olivier Messiaen.
Feita como avaliação final da disciplina «Análise de Música Contemporânea II» do programa de mestrado da Universidade de Évora, sob a orientação do Prof. Dr. Benoît Gibson.
Trabalho completo em PDF.

O Ritornello como Princípio Gerador
Análise da estrutura Ritornello no Prelúdio do Prelúdio e Fuga em Si menor, BWV 544 de J. S. Bach e pequena contextualização histórica.
Feita como avaliação final das disciplinas «Análise Musical Avançada II» e «Estudos de Repertório» do programa de mestrado da Universidade de Évora, sob a orientação do Prof. Dr. João Pedro Alvarenga.
Trabalho completo em PDF.

Análise de Drei Gesänge, op.23 - 1ª canção - Anton Webern
Trabalho final da disciplina «Análise de Música Contemporânea I” orientada pelo professor Dr. Benoît Gibson.
Texto da análise em PDF.
Apêndice 1 em PDF.
Apêndice 2 em PDF.

Análise da Sonata no 21, op. 53
“Waldstein” - 1º andamento - Ludwig van Beethoven
Trabalho final da disciplina «Análise Musical Avançada I» orientada pelo professor Dr. Benoît Gibson.
Trabalho completo em PDF.


Trabalho de «Temas de História Cultural da Música»
Psicanálise e Musicanálise: apontamentos de relação pela escuta do não-sentido
Resumo - Trabalho completo em PDF

08/12/2011

Sinos de Carla

Peça-performance utilizando a webcam como instrumento para tocar os sons.
Sinos de Carla (youtube)
Sinos de Carla (mp3)
É realizada com webcam, PureData e o "color_classify".
O color_classify é um objeto do PD que recebe a imagem da webcam e classifica a cor de cada pixel. É a primeira contribuição do Lab Macambira para o Gem (PD) e permite que objetos coloridos sejam identificados e utilizados para controlar o som.
O desenvolvimento do software foi coordenado por Ricardo Fabbri.
A composição e performance são de Gilson Beck.

25/10/2011

Sarau CLP - Niteroi - 18/Out/2011

Rato de Praia foi uma mini-instalação criada para um Sarau do blogue Caneta, Lente e Pincel, realizado em Niterói no dia 18 de Outubro de 2011. A instalação é baseada na peça Rato de Praia, com imagem de Paulo Resende e texto de André Calazans (abaixo).

Aqui estão quatro execuções interativas de alguns dos participantes do Sarau.
Para escutar, é só clicar sobre o nome delas. Para download, clique no botão direito sobre o nome e depois selecione "salvar arquivo como" ou algo semelhante.

Rato de Praia 1 (mp3)
Rato de Praia 2 (mp3)
Rato de Praia 3 (mp3)
Rato de Praia 4 (mp3)




Rato de praia, cria da areia,
cara tão suja, vida tão feia.
Correndo livre, destino incerto,
nenhuma culpa, sem dó, nem teto.

Um dia surge, no seu caminho,
almoço grátis, molho chumbinho.
Sabor amargo, decepção,
estatelado no calçadão.

08/06/2011

Concerto de Percussão, Piano e Electrónica (Tomar)

25 de Maio de 2011 - Auditório da Biblioteca Municipal de Tomar

Programa

- Gilson Beck
Improvisação sobre a peça “Cartas Celestes” de Almeida Prado (piano solo¹)
[mp3]

- Carlos Menezes Júnior
Iluminura (vibrafone e electrónica em tempo real²)


- Gilson Beck
Improvisação “Nou Chopin” (piano e electrónicos¹)

- Celso Cintra
Altar ou a Resposta dos Deuses (temple bell e electrónica em tempo real²)

- Cesar Traldi e Gilson Beck
Improvisação “Na Persistência, a Gota” (piano¹ e percussão²)

- Cesar Traldi e Gilson Beck
Improvisação “Esticar do Tempo” (piano e electrónicos¹, percussão²)
[mp3]

¹ Gilson Beck: piano e electrónica
² Cesar Traldi: percussão e electrónica

Realização:
SFGP - Sociedade Filarmónica Gualdim Pais (Tomar-Portugal)
Apoio:
FAPEMIG - Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais
UFU - Universidade Federal de Uberlândia

12/02/2011

A Cidade Diamante

A Cidade Diamante foi criada para uma Rodada Invertida do blogue Caneta, Lente e Pincel tornando-se uma peça com o texto de Júlio Corrêa.
A música é uma mistura das músicas «Aurora Borealis» de Renato Fabbri com a «Popopop» do Supreme NTM (grupo de hip-hop francês).

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Meio da madrugada, um soldado do tráfico observa a cidade a dormir lá embaixo. Em sua mente, uma canção:

No meio da noite, tudo o que tenho é você, cidade-diamante
Brilha escandalosa, com o fogo de uma amante
Você parece tão perto, ao alcance da minha mão
Mas tentar tocar você é como tentar tocar a própria ilusão

A distância entre nós, eu sei, é grande
Não precisa me lembrar quem eu sou, eu sei o meu lugar, eu sei a minha sina
Mas se você é o meu patrão, eu sou sua morfina

Olhando o seu brilho, quase penso que você é pura, que você é dama
Mas eu sei de tu, eu sei da tua lama
O que mantém este teu brilho são vidas simplesmente
Fornalha de almas, fogueira de gente

Sedenta e vaidosa, tu sempre quer mais
Quanto custa o teu brilho? É quanto custa a tua paz
Se eu quiser, acabo com a tua pose, acabo com a tua festa
Cidade-diamante, o meu ódio é o que me resta

Cidade-diamante, nossa guerra nunca vai ter fim
Desejar o que nunca vou ter é o que a vida reservou pra mim
Por isso não quero o teu beijo da morte, nem que você me estrangule com seu abraço
Você se defende com o seu dinheiro, eu me defendo com o meu aço...

SOLDADO 1 estava apontando seu fuzil para a cidade, quando soldado 2 se aproximou:
SOLDADO 2: Ih, que parada é essa, maluco? Tá querendo arrumar arengação com os homens lá embaixo?
SOLDADO 1: Tu chega atrasado pra rendição e ainda quer arrumar idéia, cumpadre?
SOLDADO 2: Tô com o meu moleque doente. Por quê? Vai me regular agora?
SOLDADO 1: Vê se fica esperto, mané! Vou segurar essa. Mas vou soltar uma letra pra tu: vagabundo já ta numa de detonar, falei?
SOLDADO 2: Demorou.
SOLDADO 1: Acabei de fazer um rap. Quer ouvir?
SOLDADO 2: Ih, se liga, mané! Não tem essa de artista! A gente não tem futuro não. Este negócio de fazer música é vacilação. Nego aproveita que tu tá de bobeira e te mete um bote, mané.
SOLDADO 1: Vai esculachar agora, vacilão? Toma.
O soldado 1 entregou ao outro o seu AK-47.
SOLDADO 1: Fui!
SOLDADO 2: Já é.
O Soldado 1 se foi, cantarolando a sua música. O Soldado 2 assumiu o seu posto.
Tudo calmo. Lá embaixo, a cidade podia dormir em paz.

14/01/2011

Trabalho de "Temas de História Cultural da Música"

Psicanálise e Musicanálise:
apontamentos de relação pela escuta do não-sentido

Trabalho completo em PDF


Trabalho final da disciplina “Temas de História Cultural da Música”.
Orientação: Professor João Pedro d'Alvarenga.

Introdução
Este trabalho tem como objectivo uma pequena abordagem da psicanálise e da musicanálise (análise musical), sobre alguns dos aspectos próprios de cada uma, sobre suas semelhanças e sobre um ponto de encontro entre as duas, no qual elas podem se relacionar e auxiliar mutuamente.

Como um primeiro passo, perguntamos o que é a psicanálise e o que é a “musicanálise”. Logo em seguida, vou expor factores que nos levam a pensar a música como uma linguagem, associar a psicanálise e a musicanálise com o uso da língua como meios de expressão e como sistema significante comum, traçar um esboço sobre a relação entre psicanálise e musicanálise, seus pontos de contacto, com que bases podemos dizer que o inconsciente e a música se estruturam como linguagem e finalmente fazer alguns apontamentos sobre a razão da musicanálise e da psicanálise.

Para isso usei como base a dissertação de mestrado feita por Luis Francisco Espíndola Camargo, intitulada “A Escuta do não-sentido: na Linguística na Música e na Psicanálise.”, feita na Universidade Federal de Santa Catarina (Florianópolis/SC-Brasil) em 2004.
Também utilizei o artigo que trata de análise musical do “The Grove Dictionary of Music and Musicians”, o livro “Arte, Dor: Inquietudes entre Estética e Psicanálise” do psicanalista João A. Frayze-Pereira, o livro “Você quer o que deseja?” do psicanalista Jorge Forbes e os artigos sobre Lacan, Psicanálise e musical analisys da Wikipédia.

02/01/2011

Voz e live-electronics

Experimentação com a cantora Juliana Penna, buscando misturar canções da MPB com live-electronics e ritmos da música eletrônica.
Que fique claro, são esboços, só o registro da ideia.

1- A Nossa Casa


2- Contato Imediato



1- Compositor: Arnaldo Antunes / Celeste Moreau Antunes / Alice Ruiz / Paulo Tatit / João Bandeira / Edith Derdik / Sueli Galdino (http://www.cifraclub.com.br/arnaldo-antunes/a-nossa-casa/)
2- Compositor: Arnaldo Antunes / Marisa Monte / Carlinhos Brown (a tribo)

01/01/2011

Mrài

Para que digo? Para ninguém. Para nada. Ninguém ouve. Ninguém sabe. Uma vida secreta. Uma vida oculta. Uma vida que não há, que não existe. Uma vida fantasma atormentada por fantasmas.

Se uma vida que não existe é uma vida fantasma, os tormentos fantasmas são tormentos que não existem, tormentos irreais, tormentos criados, bem criados, bem nutridos, bem crescidos os tormentos, que atormentam a vida fantasma e não a deixam encarnar. Tormentos tornados reais, tornados que levam os estais. Podiam navegar a vida à vida. Uma Fénix queimada por um fogo interno, uma ardência, uma vida que quer sair mas está fechada em si, fantasma, moribunda, zombie.
Zumbindo, zombando da vida, o fantasma reina, zomba da sorte, feito abelha zumbi na orelha, à cabeça da vida, coisas, regras, normas, remorsos, travas, trancas, tranches, trecos.
É quando o fantasma dorme que a vida deve acordar. Mas será que fantasma dorme?

Casa, uma esfera segura onde o fantasma devia repousar ou onde ele devia ficar de fora. Casa, a casa única, não múltipla. Casa, não o caso, não um caso, não o acaso. Casa, casta, casto, cacto, casca. Casa, causa, aquela que se não diz, aquela coisa que custa, o custo para estar protegido. Mas protegido de que? Do fantasma? O mesmo fantasma que adormece lá dentro mas que deveria estar fora? É possível matar um fantasma? Mas ele já não é um morto...

Preso a um trem, o trem fantasma. O trem anda no trilho, um traçado determinado, que efectiva e afectivamente leva a algum lugar. Não à uma casa, talvez à um caso, não casto. Carro ou caro?
O trem fantasma flutua, paira, sai da linha, descarrila. Não leva, não comunga, não comuna, não leva ao lugar comum nem ao lugar esperado.

Mas o fantasma não existe, portanto um trem livre, troço-treco que anda ao bel-prazer, ao léu, para onde quer ir com o intuito e instinto de assustar, para cumprir seu objectivo, para emocionar, para emocionar-se, para transmitir emoção. Sem noção, para trans-meter, transformar, deformar, o que chega, que pega, que solta, que vibra, que pulsa...

Já não arde, o fogo deve estar no trem, andando. O outro ardor anda por aí. Não sei dele. De carro, ainda caro, ou trem em rumo oposto? Mal disposto ou bem disposto? Não sei. Mas disponível, por mais que isso doa. Foi um ardor, este outro ardor, que queimou, que de tão quente fundiu e também derreteu, desfez. Refez também, ou pelo menos mudou, marcou, para que Fénix, agora, volte a voar.

Mas Fénix destruiu. Como sempre, a fala de Fénix sangra e faz sangrar. Fénix fere. Fere com ferro, que quente, e o mesmo ferro será ferido, até a carne feder a queimado e a dor. Ou não, Fénix é o fogo, ardor, ardência que pulsa e que escorre. O fogo que recria renasce, ressurge de cinzas, do céu cinza...

Se o fogo pega, Fénix, a chama é enorme e se alastra, contagia, não casta. Mas se for à água, por não compartilhar ou por compartir, não há união possível. Ou o fogo apaga-se ou a água evapora-se. Juntos ou associados, não só os seus poros, podem fazer o bom cozer, o que nutre, o que enche, o que completa, o que conforta, o que desenvolve, o que procria, o que recria. Se misturados, aniquilam-se, destroem-se, fundem-se, confundem-se e morrem.
Viram fantasmas, que sorte nefasta...

Fogo e água, mutáveis e extáticos, que criam, transformam, nutrem e fazem florescer. Aqueça e sacie. Nutram e confortem.
Vá, Fénix. Tu não tens ninho. Teu calor e aconchego são próprios.
Senhora do mar, Mrài, da fertilidade e da vida, no teu reino, Nobre senhora, que é ao pé do mar, reine!

28/11/2010

As Esponjas e as Bactérias

As Esponjas e as Bactérias foi criada para uma rodada do blogue Caneta, Lente e Pincel tornando-se uma peça com o texto de Maíra Fernandes de Melo.


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Os cientistas ainda não sabem se o universo é infinito ou só incomensurável. O próprio universo que conhecemos – quer dizer, que os cientistas conhecem – pode conter milhares de outros universos e está sempre se expandindo.

O que vemos no universo quando olhamos para o alto ou vamos a um planetário nada mais é do que o que estava ali há 14 bilhões de anos. O que vemos ali agora está na verdade a uma distância muito maior de nós, ou até já nem existe, ou já virou outra coisa...

Como todo mundo aprendeu na escola, a nossa galáxia é a Via Láctea, e o nosso sistema é o Sistema Solar. Mais do que isso, nós, que não somos cientistas, provavelmente nunca vamos ficar sabendo. Dizem eles – os cientistas – que, por causa da forma como as galáxias se aglomeram e se distribuem, o universo tem a aparência de uma célula. A vida na Terra também nada mais é do que um aglomerado de células. A célula é a menor porção da matéria viva. Da vida em si.

No corpo de todos os organismos, as células, assim como o universo, estão sempre em movimento. Uma célula morre, não sem antes dar suas informações genéticas para a próxima célula que virá. Assim, o corpo continua funcionando e a gente continua vivo. Há quem diga – de novo, os cientistas – que de sete em sete anos todas as células do corpo de um ser humano terão morrido e dado lugar a novas células. É a chamada renovação celular. De sete em sete anos seríamos pessoas completamente diferentes, mas com a mesma informação genética. Não sei se isso é verdade, mas até que faz sentido. Se não me engano (não sou muito religiosa...), o budismo tem ciclos de sete em sete anos. A astrologia também. Sete, catorze, vinte e um, vinte e oito. Não comprava muito essa coisa da astrologia não, mas agora que fiquei sabendo que os cientistas também acreditam em ciclos de sete, tô fodida. O Retorno de Saturno tá chegando pra mim.

Mas não era nada disso que eu queria dizer. Falei isso tudo só pra vocês entenderem do que eu quero falar. O que eu queria dizer é que a morte – ela, sempre ela – tem tudo a ver com o envelhecimento celular. Quando você estiver no décimo segundo ciclo de sete, com 84 anos, as suas células vão passar para as que vierem no lugar delas a informação genética de que você está ficando velho. Daí pra frente, menino, é ladeira abaixo. Mas isso obviamente se você – ou eu – não morrer antes, de alguma doença ou trauma que degenere ou interrompa o processo celular do seu corpo. Tantas possibilidades, tantos medos, quando na verdade é tudo bem simples: doença, trauma ou envelhecimento celular. São só três as formas de morrer.

Sete bilhões de pessoas no mundo. Sem contar o crescimento demográfico dos próximos ciclos de sete. Sem contar também a preferência por organismos humanos do sexo masculino na China. Ou o equilíbrio populacional que as guerras empreendem. Nada disso interessa. O que interessa é que todas as multidões do planeta, aquelas que se aglomeram esperando o sinal abrir para os pedestres, na Rio Branco ou na Quinta Avenida, todas as pessoas só têm três formas de morrer. Se elas morrerem na rua, na cama de casa ou na maca do hospital, eletrodos ligados ao corpo e o piiii daquela maquininha, quando o gráfico vira linha reta e o médico anuncia a hora da morte pra botar no atestado de óbito, não interessa. Fato é que teremos morrido de uma das apenas três maneiras de morrer.

A parte boa – se é que existe alguma parte boa nisso – é que há organismos no planeta, em meio a toda a diversidade existente, que não ficam velhos. É verdade. Isso também são eles – os cientistas – que dizem. As bactérias, por exemplo, duplicam suas células a cada vinte minutos. Se houver condições suficientes (alimentação, ambiente propício e tal), elas não envelhecem nunca. As células das bactérias vão sempre se reproduzir e elas nunca vão morrer de velhice. As esponjas também. O envelhecimento celular das esponjas é quase nulo, muitas vezes nem dá pra ser detectado. O que significa que se não vier um tubarão para comê-las (e eu nem sei se tubarão come esponja) ou se elas não forem intoxicadas pelo óleo derramado por algum navio em alto-mar, as esponjas não morrem nunca. A mesma coisa com as bactérias. Se não houver um exército de antibióticos armado com fuzis para assassiná-las, as bactérias também não morrem.

É claro que na prática isso é quase impossível. Mais cedo ou mais tarde, dentro do tempo da Terra, eventualmente elas também vão ser atingidas por doenças ou traumas, e vão morrer. Não é que as esponjas e as bactérias sejam imortais. É só que, pra elas, só existem duas formas de morte, e não três. E era isso que eu queria dizer.

22/11/2010

«Prêmio Funarte de Composição Clássica»

Fui premiado no «Prêmio Funarte de Composição Clássica».
O concurso foi realizado para selecção de obras para a 19ª Bienal de Música Brasileira Contemporânea.
Das 384 obras inscritas, 59 foram seleccionadas para serem executadas durante a Bienal, no segundo semestre de 2011. Uma das 59 foi a minha.

A peça chama-se «No Leito do Aqueronte», escrita para quarteto de cordas e concorreu na categoria «conjuntos de câmara de 04 a 10 instrumentos».
O anúncio saiu no site da Funarte.

17/11/2010

Caneta, Lente e Pincel - 1 Ano

Entrevista sobre a comemoração de 1 ano do blogue Caneta, Lente e Pincel, por Renato Amado à Rádio MEC.

22/10/2010

Escritório

Escritório foi criada para uma rodada do blogue Caneta, Lente e Pincel tornando-se uma peça com o texto de Igor Dias.


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Esse barulhinho cotidiano
de passos, de máquina de escrever,
de janelas batendo sem querer
ou de trovão, é, sem qualquer engano,

uma angústia torta do ser humano,
que se fia nele sem perceber,
mas de um jeito estranho, sem o poder
que se costuma atribuir, e o plano

é, então, musicalizar as bossas,
empoderar esses surdos ruídos
pra que os tímpanos dos homens recebam

as catarses dos dias destruídos
na minúcia da rotina, e que sejam
felizes no curtir de suas fossas.

Música: Gilson Beck.
Texto: Igor Dias.

02/10/2010

Cibele

Cibele é um conto electroacústico criado para uma rodada do blogue Caneta, Lente e Pincel tornando-se uma peça com o texto de Fabiano Vianna.


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A garota nua correu em direção ao beco e eu fui atrás. Sua pele alva contrastava com as paredes escuras abarrotadas de trepadeiras. Cabelos ruivos revoltos. A ruela era tão estreita que a luz que entrava por cima era extremamente escassa, tampada pelos imensos prédios. Apressei o passo para não perdê-la de vista, ora afastando galhos que se prendiam das paredes. Pistola armada com silenciador. O chão também era de musgo. Escorregadio pacas. Clima úmido como floresta. De vez em quando a garota olhava para trás para conferir se eu ainda estava. Começou a correr feito uma lebre. Tive que correr também. Odeio metamorfos. Já tinha a perdido outras vezes. Desta vez não podia falhar. Corria ligeiro, derrapando no limo. Tentei atirar. Feito gata, saltou numa escada de metal e subiu rapidamente. Fui atrás. Perdi alguns segundos. Músculos puxados – quase distendi. Quando olhei pra cima a vi chegando à cobertura. Fui de dois em dois, ofegante, até o topo. Meu pé de vez em quando falhava no lodo. Ultrapassei janelas de apartamentos abandonados. Cheiro de ar puro em céu aberto. Na cobertura, não encontrei ninguém. Nenhum sinal da ruiva fantasma. Apenas uma inofensiva borboleta vermelha voando entre os edifícios. Atirei. Caiu feito chumbo fazendo estrondo no beco. Olhei da ponta e vi a ruiva nua, morta, lá embaixo. Parecia pintura de Gustav Klimt. Corpinho branco e cabeleira vermelha. Um grande lago de sangue escuro sobre o manto verde. Tirei meu celular do bolso de dentro do paletó e fotografei. Enviei como anexo com a mensagem: Tá Feito! – a meu contratante.

18/08/2010

Nim'mera


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Nim'mera foi composta para o Grupo de Música Contemporânea da Universidade de Évora (Portugal), segundo a sua peculiar formação de guitarra, violino, flauta, clarinete, clarinete baixo, fagote, saxofone contralto, trompa, trompete e piano.

Feita com o objectivo de pesquisar a possibilidade de estruturação composicional na qual todas as partes se relacionem entre si, ou seja, todas as decisões e posicionamentos composicionais foram tomados tendo os mesmos elementos (quantitativos) como critérios.

É uma miniatura, com constantes retornos (rondó?). Linhas que se movem para um único ponto, onde ficam a saltitar.

02/08/2010

dobrado fibonacci

dobrado fibonacci foi criada para uma rodada do blog Caneta, Lente e Pincel tornando-se uma peça com o texto de Guilherme Preger.

É uma primeira experiência de relacionar texto e música não só nas questões de afecto, mas também no que diz respeito à estrutura.
O conjunto é feito a partir da frase "o desejo é partido". Esta frase é estruturada a partir da série de Fibonacci, com os elementos 1 2 1 1 3 (o-dese-jo-é-partido).
Na música, este elementos definem as durações dos sons e da estrutura formal, sendo 1=100ms, utilizando de ampliações (por exemplo 3+5+3+2+8=21 ou 8+13+8+5+21=55).
As sílabas da frase são o material sonoro matriz da música, que, manipulado com o ABT (ABeatTracker - REAME_ABT.txt) desenvolvido por Renato Fabbri, gera todos os sons da peça.


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o
dese
jo
é
partido

o
dese
jo
é
dobrado

os
olhos
que
se
defrontam

são
curva
dos
são
vazados

o
dese
jo
foi
vertido

no
olhar
dis
se
minado

o
dese
jo
in
vertido

o
olhar
diz-
se
minado

o
dese
jo
foi
perdido

o
olhar
foi
en
contrado

22/06/2010

Mais uma de Mary Jane

Mais uma de Mary Jane foi criada para uma rodada invertida do blog Caneta, Lente e Pincel tornando-se uma peça com o texto de Assionara Souza.

Mary Jane poderia seguramente pontuar uma dúzia de histórias que fertilizaram sua imaginação e fizeram com que cada vez mais ela se tornasse Mary Jane. Um dessas, sem dúvida, é a história de Nessie. As duas se conheceram numa noite quente de verão em que os adultos ficaram até tarde tentando sem muito sucesso se refrescar com todas as janelas abertas, umas doses de martini e a doce empáfia sonora em vertigem na agulha da vitrola. Quando todos se refestelavam, Mary Jane deitou-se no tapete embaixo da mesa e, com fones de ouvidos que a separavam do burburinho sensual dos mais velhos, concentrou-se em absorver os mais bizarros segredos da criptozoologia jamais exibidos na tv. Enquanto flagrava a metonímia das pernas num vai-e-vem frenético pela casa, seus pensamentos inundavam-se de toda a água do Loch Ness e os olhos mesclavam-se com as imagens insólitas de quando Nessie, dominada por uma solidão jurássica, subiu à superfície e deixou que o mundo tomasse conhecimento de sua existência. Trêmula e quase compulsiva, Mary Jane enquadrou sua polaroid no campo reluzente da Telefunken e registrou com emoção vibrante aquele momento histórico de sua morna adolescência.

Texto de Assionara Souza.



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08/06/2010

O Som de Dentro

O Som de Dentro foi criada para o blog Caneta, Lente e Pincel tornando-se uma peça com o texto de Ilana Reznik.


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Não é om, é tum. Repetidas vezes. O som primordial é este que está guardado em uma caixa de caber fogos de artifício. Ora estouros sucessivos, ora intervalos que mais parecem carretéis de lã. O barulho que dispara é o mesmo que diz pára, é o mesmo que vai para onde eu nem sempre consigo fotografar com uma palavra. O seu é tão metálico, que eu espero que não seja irreversível de doçura. Na tentativa de compreender seu ritmo, trago agora comigo uma mala cheia de ferramentas. Silêncio para que eu ouça. Não fala que eu te ausculto.

Texto de Ilana Reznik.